sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Uma ambivalente nova ordem


A cena inicial, a vozearia inconveniente que perturba os “mistérios Gloriosos e Dolorosos” recordados pelo príncipe na recitação do rosário, condensa toda a história. O destino de uma classe que vivia então encerrada “entre três muros e um dos lados da villa” numa “clausura que lhe conferia um ar de cemitério” (Lampedusa, p.13, Livraria Bertrand) . O conto da decadência e morte de uma época e de uma sociedade. E tudo perto da perfeição.
A esterilidade das paisagens sicilianas, as ruínas de Donnafugata, a entrega do sangue nobre na dança do príncipe com Angélica- onde o sacrifício se estende à felicidade da própria filha- o enfado da madrugada do baile com os seus bacios sebentos, o tom de fim de festa, o reflexo proustiano do tempo na imagem do príncipe ao espelho, convergem para essa prece pura que o príncipe faz a Vénus “sempre fiel”, “longe das imundices e do sangue” (Lampedusa, p.273). A constância.
O mais longo baile do cinema e a frase “é preciso que alguma coisa mude, para tudo continuar na mesma”, são habitualmente apontados como os clímaxes do filme. Contudo, partilho da opinião de José Medeiros Ferreira quando indica a magistralidade do diálogo entre o Príncipe e Chevalley.
Chevalley convida o príncipe para o senado, num discurso balofo. Diz Lampedusa que “as lisonjas deslizavam sobre a pessoa do Príncipe como a água nas folhas dos nenúfares; esta é uma das vantagens de que gozam os homens que são ao mesmo tempo orgulhosos e habituados a sê-lo” (p.201) E responde: “-Ouça-me, Chevalley; se se tratasse de um sinal honorífico, de um simples título para pôr no cartão de visita e mais nada, eu teria muito prazer em aceitar: julgo que, neste momento decisivo para o futuro do Estado italiano, é dever de todos dar a sua adesão, para evitar o espectáculo de discórdias em face daqueles Estados estrangeiros que nos olham com um temor ou com uma esperança que se revelarão talvez injustificados, mas que, por ora, existem.
(…) Nós, os sicilianos, habituámo-nos durante uma longa, muito longa hegemonia de governantes, que não eram da nossa religião, que não falavam a nossa língua, a cortar os cabelos em quatro. Quem não fazia isto não podia escapar aos extractores bizantinos, aos emires berberes, aos vice-reis espanhóis. Agora fomos dobrados de novo, somos assim feitos. Nestes últimos seis meses, desde que o vosso Garibaldi pôs o pé em Marsala, foram feitas demasiadas coisas sem nos consultarem para que se possa agora vir pedir a um membro da velha classe dirigente que as tome em mãos e as leve a bom termo. Não quero discutir neste momento se o que se fez foi mau ou bom; mas quero-lhe dizer já que o senhor só compreenderá por si quando tiver estado um ano entre nós. Na Sicília não importa fazer mal ou fazer bem: o pecado que nós, sicilianos, não perdoamos nunca é simplesmente o de “fazer”. Somos velhos, Chevalley, terrivelmente velhos.” (p.203)
É a fala da perenidade de um sonho e de todas as civilizações, perpetuadas por Giuseppe Tomasi, duque de Palma e que iniciou a escrita deste romance aos 60 anos. No filme, a contrário do livro, só há a insinuação da morte do príncipe. Não é permissível odiar coisa alguma, a não ser a eternidade, dizia D. Frabício.