terça-feira, março 14, 2006

Paradoxos na protecção à Infância e Juventude

Muito me agrada a perspectiva de alargamento da rede social por parte do Governo, anunciada no Público de Domingo, com honras de primeira página. As metas a atingir são ambiciosas: 50% de aumento de vagas em creches, 17,5% em lares residenciais, 30 % de aumenmto dos serviços de apoio domiciliário a pessoas com deficiência, 10% de aumento de vagas nos centros de dia, 10% também nas vagas em lares de idosos e 10% de acréscimo no apoiuo domiciliário a idosos. Destas medidas, grande parte se reportaria a instituições públicas, o que me levou a pensar que haveria ainda algum bom senso no meio desta confusão em que vivemos.
Contudo, no Expresso de Sábaado as gordas são mais preocupantes. O governo ( o mesmo, curiosamente, que propõe as medidas supracitadas) ordenou uma avaliação dos Centros Educativos, nos quais se encontram institucionalizados "menores envolvidos em casos de delinquência", sendo opinião do Secretário adjunto do Ministro da Justiça que o número de centros existentes (12) "pode bem ser reduzido para seis". , já que " é preferível termos menos centros mas mais eficazes, do ponto de vista da formação escolar e profissionel, e da reinserção social...".
Ora, a questão seria que os actuais centros estão "sobredimensionados", havendo demasiados funcionários para o número de jovens existente.
Este paradoxo é-me difícil de compreender. Há algum tempo tive a oportunidade de ver um documentário extraordinário no Odisseia, a propósito de um projecto de trabalho de psicoterapia e reinserção de presidiários que haviam cometido delitos sexuais graves, no Canadá. O programa de tratamento consistia em trabalhar com um grupo de apenas dez presidiários que seriam recolocados, vivendo em regime fechado numa comunidade terapêutica, onde eram acompanhados por técnicos de elevada comnpetência ao longo de um período mínimo de um ano.
Os resultados eram admiráveis, apesar de não haver milagres que transformem pessoas com esta história de vida em meninos do coro.
Não me lembro de ver os entrevistados queixarem-se de excesso de meios, nem de considerarem o programa um luxo. Parece-me claro, ao ouvi-los, tal como me parece na minha prática diária, que é assim que se está a fazer trabalho válido. Ali, no vínculo com os utentes. Na relação terapêutica. Nas inúmeras reuniões de equipa. No balanço que se fazia ao longo de toda a peça. Na aprendizagem diária.
A psicopatologia severa, a delinquência, o desamparo, a falta de vínculos não se tratam ao magote, em centros "devidamente dimensionados". À escala humana? A que escala, senhor secretário de estado?
Redimensionar os centros educativos é mais do que fazer render o pessoal, "trabalhar em rede" (conceito ambíguo para quem anda por estas lides)e embelezar os espaços.
É talvez criar medidas para que um dia seja possível: haver uma mais rigorosa selecção dos técnicos e educadores; equipar os centros com profissionais experientes e capazes, que trabalhem em equipa e ali se questionem e enriqueçam; permitir-lhes uma supervisão de qualidade, por técnicos externos, que os ajudem a elaborar as dificuldades e a fazer uma leitura mais desintoxicada das relações; pensar se resulta ter educadores a trabalhar por turnos, sem estabilidade nem nas suas rotinas nem nas das crianças; avaliar, a partir do quotidiano e da reflexão técnica, as medidas disciplinares que constam do regulamento destes e de outros equipamentos sociais...etc.etc.
E, acima de tudo, possibilitar que cada uma das crianças e jovens que vive nestes lugares estranhos (lembro-me do José Fanha me dizer que um dia foi fazer poesia com os jovens a um destes centros e quis lá pernoitar, mas, chegada a hora, não se sentiu capaz de ficar ali, num lugar assim...) sinta que há espaço para a (re)construção de uma identidade, de uma rede de relações, de um caminho que valha a pena percorrer.
A esperança não provém da funcionalidade das instalações tanto como da segurança que nasce no investimento que cada um de nós, enquanto técnico, é capaz de fazer. Nestas crianças e jovens, e em si mesmo. Na sua formação, no seu sentido ético, no perpetuar da sua disponibilidade.
Muitas vezes é triste ler notícias como esta, que infelizmente confirmam o lugar que estas crianças e jovens com percursos delinquenciais parecem ocupar na nossa sociedade. O "longe da vista, longe do coração". O "para quem é, bacalhau basta". E todos os outros atavismos que insistimos em manter, em despeito do nosso crescimento.