terça-feira, fevereiro 28, 2006

Os caretos de Lazarim

No Domingo estive em Lazarim, uma pequena localidade no concelho de Lamego, onde o entrudo ainda se festeja à moda antiga. Alguns artesãos locais trabalham "aos serões" para manter a tradição dos caretos, máscaras de madeira feitas propositadamente para cada um dos habitantes que se propõe saír à rua mascarado. O peso das máscaras e o tempo que demoram a ser feitas não impedem a população de continuar a querer usá-las, fazendo do entrudo de Lazarim um dos mais castiços e originais que ainda temos.
Alguns jovens fazem, em segredo, a sua própria máscara, para surpreender os demais no dia da festa. Alguns deles ganham-lhe o gosto, e os artesãos locais têm esperança que a tradição continue pelas suas mãos.
No Domingo, a festa foi suave. Desfilaram os ranchos da região, acompanhados por animais e carroças. Comeram-se os "pitinhos", feitos com massa de pão, a bola de vinha de alhos, enchidos e queijo. A serra de Montemuro, ali mesmo ao lado, estava coberta de neve. O regresso, pelo percurso alternativo à autoestrada, foi de uma extraordinária beleza.
Hoje, terça feira, Lazarim festejará em grande. É o dia em que os caretos saem à rua para surpreender e competir, já que algum dentre eles será escolhido como o melhor careto da festa. Os jovens irão ler O Testamento da Comadre e O Testamento do Compadre, que, em tom jocoso e com astúcia e humor, vão revelando os defeitos encontrados ao longo de meses nas raparigas e rapazes da vila. O filho do artesão explicou-nos " é o dia em que os defeitos saem todos para hasta pública.Os rapazes e as raparigas aqui do povo passam o ano a tentar descobrir os defeitos uns dos outros. E depois fazem-se os testamentos. Agora já nem tanto, mas as deixadas deram zangas durante anos."
Cabe ao leitor do testamento oferecer ao ofendido "a parte da burra que lhe for merecida".
Pelos ameaços de Domingo, esta tarde em Lazarim deve ser para os duros. Vale a pena ir até Lamego e procurar, a poucos quilómetros, para os lados de Tarouca, este lugar perdido, esquecido durante todo o ano, mas que hoje abre as portas para mostrar de que fibra é feito.